Efeito solo

Por 38 anos, os pilotos de F1 guiaram seus carros com assoalhos planos. Em 2022, pela primeira vez, dois túneis separados são desenhados da extremidade frontal dos sidepods até a traseira. Esses túneis gerarão a maior parte do downforce do carro, com arrasto significativamente menor do que as asas tradicionais no topo. A pressão de contato não vai depender tanto de um fluxo limpo de ar, o que significa que se pode seguir o carro da frente mais de perto.

Até quatro geradores de vórtice são permitidos na entrada dos novos canais logo antes da caixa lateral. São pequenas barbatanas verticais que criam vórtices artificiais. Estes aceleram o fluxo de ar pelos túneis e aumentam o que é conhecido como efeito Venturi, que suga o carro para o asfalto e gera o efeito solo, que aumenta a velocidade dos carros, as ultrapassagens e a competitividade. Esse recurso, o efeito solo, foi usado na F1 de 1978 a 1982, mas foi banido pela quantidade de acidentes que causou.

O “efeito de Venturi” é baseado no princípio de Bernoulli, segundo o qual, quando passamos um líquido de forma constante por um funil, a velocidade com que esse fluido sai na extremidade mais fina é maior do que a velocidade na extremidade mais larga. Além de a velocidade de saída ser maior, a pressão é reduzida. Isso acontece porque não muda a quantidade de líquido, muda apenas o caminho por onde ele passa. Enquanto houver líquido entrando, haverá uma pressão maior na entrada do que na saída e a vazão desse líquido será mais veloz no ponto em que for “estrangulado”.

O efeito solo faz algo semelhante a isso no carro da F1: ele faz com que o ar entre por um caminho largo e fechado e saia por um mais estreito. Para fazer o efeito solo acontecer, as laterais dos carros precisam ter saias que prendam o ar debaixo do carro, oferecendo apenas uma saída estreita, determinada pelos projetistas.

Quando a saída do ar é direcionada para cima, o carro se agarra mais ao chão, porque se reduz a pressão na parte de baixo com o efeito solo. Enquanto isso, aumenta-se a pressão na parte de cima com o fluxo de ar gerado pelas asas dianteiras e traseiras.

Com o carro mais preso ao chão e com o fluxo de ar direcionado para cima, os carros podem andar mais rápido e perseguir os oponentes de perto, favorecendo as ultrapassagens.

O efeito solo foi banido da categoria por ser muito sensível às oscilações do asfalto e a objetos que estejam no caminho do carro. O período em que foi utilizado foi marcado por vários acidentes, alguns deles fatais.

A maioria dos acidentes acontecia, quando os assoalhos tocavam o asfalto, o que fazia o ar parar de fluir e ficar preso embaixo do carro, causando um aumento excessivo da pressão. Isso empurrava o carro para cima, fazendo-o perder contato com o solo e, em alguns casos, decolar como um avião.

A sensação para os pilotos é similar à da aquaplanagem para um motorista de veículos de rua. No entanto, a velocidade de um F1 se aproxima daquela necessária para fazer os aviões decolarem, tornando a situação muito mais perigosa.

Em 1982, o carro de Gilles Villeneuve decolou e se desintegrou após tocar na traseira de Jochen Mass. A Ferrari estava a mais de 200km/h e voou por quase 100 metros antes de se chocar contra o chão e ser destruído. Villeneuve não resistiu aos ferimentos e morreu horas depois.

O companheiro de Villeneuve na época, Didier Pironi, reclamou da falta de segurança provocada pelo aumento da velocidade dos carros nas curvas: “Antes da introdução do efeito solo, os carros costumavam fazer a curva em que Gilles morreu à 180Km/h. No sábado nós estávamos atingindo 260Km/h”.

             *O efeito Venturi (também conhecido como tubo de Venturi) ocorre, quando em um sistema fechado, um determinado fluido em movimento constante e dentro de um duto uniforme se comprime momentaneamente ao encontrar uma zona de estreitamento, diminuindo sua pressão e, consequentemente, aumentando sua velocidade ao atravessar a zona estreitada onde ocorre também uma baixa pressão, e, se neste ponto, for introduzido um terceiro duto ou uma sonda, encontrará uma sucção do fluido contido nessa ligação. Este efeito, demonstrado em 1797, recebe seu nome do físico italiano Giovanni Battista Venturi (1746-1822) ”.

Fontes

https://www.autoracing.com.br/

https://motorsport.uol.com.br/