14/11/20

Reginaldo Leme: a 1ª pole ninguém esquece

Assim como a primeira vitória, a primeira pole position na fórmula 1 o piloto também nunca esquece.  E chegou a vez de Lance Stroll, canadense que há quinze dias completou 22 anos de idade, e está no seu quarto ano de formula 1. Sem dúvida, foi uma grande surpresa. E tudo o que ocorreu neste fim de semana na Turquia, você já sabe, foi consequência de muita chuva misturada com a péssima ideia dos organizadores do GP da Turquia de asfaltar a pista duas semanas atrás. Mas não foi uma pole conquistada ao acaso. Na parte final da classificação, a equipe Racing Point já vinha dominando o treino, mas com o mexicano Sergio Perez. Na verdade, até o finalzinho da Q3, Perez tinha o melhor tempo e vinha batendo a sua própria marca. Até então, o risco maior vinha da Red Bull porque Max Verstappen, mostrando toda a sua habilidade em pista molhada, havia dominado os três treinos livres mais Q1 e Q2. Mas a volta final de Stroll foi muito boa; ele encaixou os três setores da pista e superou o companheiro de equipe. A Racing Point tinha acertado em cheio ao ser a primeira a trocar os pneus de chuva pelos intermediários na Q3. Quando Verstappen, que era o mais veloz com os pneus de chuva intensa, os de cor azul, resolveu trocar para os de cor verde, só deu tempo para mais uma tentativa. Conseguiu derrubar Perez para terceiro atrapalhando a primeira fila toda dos carros rosa, mas não foi suficiente para garantir a pole com a qual a Red Bull estava contando.

Lance Stroll vinha atravessando uma fase bem ruim. Na disputa direta com seu companheiro de equipe, Sergio Perez, em posições de largada, estava perdendo de 8 a 2, já descontadas as duas provas em que Perez ficou fora por ter sido infectado pela Covid, o que ocorreu também com o próprio Stroll. E o que é pior, o canadense, apesar de seus 22 anos de idade, sofreu mais com a doença, e vinha tendo problemas de cansaço nas corridas. Hoje as coisas viraram. A Racing Point, primeiro, viu a chance da primeira pole da equipe, mas com Sergio Perez; depois chegou a sonhar com uma dobradinha por ter dado certo a sua opção pelos intermediários. E acabou com o resultado mais surpreendente, a pole de Lance Stroll, que é filho do dono da equipe. Só não saiu a dobradinha porque Verstappen pulou pra segundo na sua última volta.   É um fim de semana confuso, com os três treinos livres prejudicados por um asfalto com menos de duas semanas de maturação, situação piorada pela chuva. O asfalto, quando novo demais, solta naturalmente um óleo que faz parte da composição do betume. Os organizadores da corrida, que também administram o autódromo, tiveram tempo de sobra para fazer isso, mas acabaram recapeando a pista duas semanas atrás, e bem depois de a Pirelli já ter feito a escolha dos tipos de pneus que seriam usados.

Depois de toda a confusão da sexta-feira, hoje a classificação quase não acontece. Logo na Q1 uma bandeira vermelha fechou a pista por quarenta e cinco minutos. O Q2 também sofreu interrupções. E com a luz natural caindo rapidamente, o final do dia chegando, a direção de prova se preocupou em não conseguir levar a classificação até o final. O pôr do sol nessa época na Turquia acontece antes das seis da tarde.

Foi duro para Verstappen perder a pole depois de dominar os três treinos livres e também o Q1 e o Q2. Ele sobrava na pista com os pneus de chuva. A Red Bull demorou pra fazer a tentativa com os pneus intermediários que vinham dando certo na Racing Point e em outros carros. Sobrou apenas uma volta para o holandês, que ficou em segundo, 290 milésimos atrás. Isso derrubou o mexicano Perez, que chegou muito perto da sua primeira pole, para terceiro, o que pode não ser um grande problema na corrida. Foi ele mesmo quem disse que, pelas condições, largar em terceiro é melhor do que largar em segundo. Mas a decepção de Perez, assim como a de Verstappen, tornaram-se pequenas diante da tristeza da Ferrari, que viu seus dois pilotos caírem foram logo no Q2m justo no fim de semana em que a equipe parecia ter encontrado um caminho melhor.

E foi preciso um fim de semana confuso como este para que alguma outra equipe impedisse que a Mercedes Amg Petronas continuasse sua busca pelo resultado inédito de 100 por cento das poles em um campeonato. Mas, ironicamente, mesmo sem a pole como equipe, a Mercedes se manteve em primeiro, como motor. Agora é esperar pelas condições de tempo amanhã. Por enquanto, a previsão é de chuva também na corrida. Mas isso não entra nas simulações que a Pirelli faz depois de definido o grid, porque tudo depende do volume de água se a chuva vier mesmo. A simulação com pista seca pode não valer nada, mas é o que ela tem a mostrar. E o mais indicado, nesse caso, seria de uma corrida com duas paradas, com as opções de macio, médio e macio ou macio, médio e médio, dependendo do desgaste dos macios.

Neste campeonato, a Mercedes só não venceu duas corridas.  Uma na Inglaterra, que foi de Verstappen, e outra na Itália, que foi de Pierre Gasly. Mas, de fato, este GP da Turquia é o único em que Hamilton ou Bottas não largam como favoritos. De qualquer forma, seja qual for o resultado, é muito grande a chance de Hamilton fechar a conta do seu sétimo título mundial.  E aí a festa da equipe alemã será maior do que a da equipe que vencer a corrida. A não ser que seja uma que ainda não tem vitória na fórmula 1. Antes de encerrar, é importante ressaltar ainda as sensacionais voltas rápidas que o extraordinário Kimi Raikkonen fez no pior momento da chuva. Ele chegou a ser o mais rápido e esteve sempre entre os mais velozes, terminando em oitavo. Um campeão será sempre um campeão. Também os dois pilotos da Renault, que estavam mal no fim de semana, se recuperam; Ricciardo em quinto e Ocon em sétimo. Quanto ao fraco desempenho da Mercedes, não vi explicação oficial. Pista molhada nunca foi problema para Bottas e, muito menos, para Hamilton. O que pode ter dado errado? Alguém pode dizer que ela apostou em corrida sem chuva amanhã, e a gente sabe que, pela regra, nada pode ser mudado nos carros, mesmo que o dia amanheça com sol. Mas até isso eu acho difícil. Afinal, por que ela teria uma previsão de tempo tão diferente das outras?

A gente sempre torce por chuva para tornar a corrida menos previsível, mas não por uma confusão tão grande quanto esta que a Turquia aprontou, e que não vai ajudar em nada nos seus planos de voltar a fazer parte do mundial. Mas já que está assim, vamos curtir as surpresas que o GP promete. Stroll e Perez vão conseguir se manter lá na frente? Verstappen pode ser considerado um favorito? Até acho que pode. E a recuperação de Hamilton e Bottas largando em sexto e nono? É tudo isso o que nos espera amanhã.