Um furo mundial

No dia 30 de agosto de 2009, durante o GP da Bélgica, pela TV Globo, Reginaldo Leme revelou um dos maiores, senão o maior, escândalos da Fórmula 1. Durante a corrida, informou que a FIA estava investigando a denúncia de que o acidente de Nelsinho Piquet, na corrida de Cingapura, na temporada anterior, não tinha sido acidental, mas fez parte de uma farsa para garantir a vitória de Fernando Alonso. Foi um furo com repercussão, ainda no mesmo dia, na mídia de todo o mundo.
Eis o relato da história, feito por Reginaldo Leme, na edição do Anuário AutoMotor 2009/2010:

O 29 de agosto de 2009 começou como qualquer outro dia de treino oficial de um Grande Prêmio. Ainda mais sendo na Bélgica. Manhã chuvosa, céu ameaçando mais água. Bem a cara de Spa-Francorchamps. Eu tinha saído direto de Valência, onde uma semana antes, Rubinho Barrichello tinha conquistado a 100ª vitória brasileira na Fórmula 1. Ainda me preocupava com a recuperação de Felipe Massa, que já estava no Brasil, preparando-se para uma cirurgia importante e nem pensava tanto na promessa que o amigo Nelson Piquet havia feito um mês antes, dizendo que “no momento certo” me contaria algo que cairia como uma bomba.
Um dia eu tomaria conhecimento de um escândalo muito grande. Confio na visão de Nelson Piquet. E ele me escolheu, como já tinha escolhido 17 anos antes, em 1992, para fazer a única e definitiva entrevista para a TV quando ele vivia o pior momento de sua vida, recuperando-se do acidente sofrido em Indianápolis. Dias difíceis passados em um condomínio de casas em Indianápolis. Isso é passado, mas um capitulo importante da história do nosso automobilismo, que rendeu uma reportagem de oito minutos no Fantástico, quando Piquet já não era piloto da Fórmula 1 e corria por um categoria sem cobertura da TV Globo.
De volta a Spa, eu não tinha notado nada de anormal no paddock, mas meia hora depois de terminado o treino de definição do grid, recebi um telefonema do Nelson dizendo que ele teria de antecipar a entrevista porque o assunto poderia vazar, já que uma investigação da FIA tinha sido iniciada ali mesmo no autódromo. Aí, ele me contou toda a história que o mundo passou a conhecer a partir dali.
.Na corrida de Cingapura, no ano anterior, a batida de Nelsinho Piquet que proporcionou uma reviravolta na corrida e, consequentemente, a vitória do companheiro Fernando Alonso,tinha sido de propósito. Planejada por Flávio Briatore e o seu segundo, Pat Symonds, e executada Por Nelsinho, sucumbindo à pressão de seus chefes.
Dois dias depois da corrida, não querendo falar diretamente com o pai, Nelsinho resolveu contra a história para o amigo da família Felipe Vargas, que se encarregou de contar ao Nelson. O pai esperou as três semanas eu faltavam para o GP do Brasil e, em Interlagos, relatou tudo para Charlie Whiting, da FIA, seu velho amigo e chefe de mecânicos na época em que corria pela Brabham. Whiting aconselhou Piquet a colher provas ou convencer Nelsinho a fazer uma denúncia à FIA. Mas Nelsinho já estava com contrato assegurado para mais um ano na Renault e não topou a ideia.
Este novo contrato com a Renault exigia igualdade de equipamento e o mesmo tempo de testes de Alonso, durante 2009. Briatore, que era também empresário pessoal de Nelsinho concordou porque isso não deveria ser problema.Só que o ano começou de uma forma que ninguém esperava. Uma supremacia arrasadora da Brawn fez a Renault mudar os planos e tentar investir tudo que podia no carro do bicampeão Alonso, o primeiro a receber uma cópia do difusor duplo que fazia a diferença, além de outros componentes que foram sendo criados pelos testes em túneis de vento.
Nelson Piquet, pai, que resolvera acompanhar o filho em todas as corridas, esperou as coisas se acalmarem e, com o campeonato mais equilibrado, chamou Briatore para uma primeira conversa.Isso aconteceu por volta da sétima corrida do ano. Nada mudou. Conversaram de novo duas corridas depois e o último encontro dos dois foi na Hungria, exatamente no dia em que Felipe Massa sofreu o acidente , sábado, 25 de julho, coincidentemente dia do aniversário d e Nelsinho. No dia seguinte, ele faria a última corrida pela Renault. E na segunda-feira já estava na sede da FIA para fazer a denúncia ao presidente Max Mosley. Toda gravada.
A revelação

A história , cuidadosamente contada por Nelson naquela véspera do GP da Bélgica, tinha que ser ainda mais cuidadosamente jogada no ar durante a corrida do dia seguinte. Por que o cuidado? Porque ainda não era o momento de revelar que tudo tinha partido de um depoimento de Nelsinho. Os fatos iriam sendo revelados aos poucos nos dias seguintes, por recomendação dos advogados que tratavam do delicado assunto. Naquele momento, era importante apenas dizer que estava em curso uma investigação por parte da FIA e que Flavio Briatore, Pat Symonds, além de engenheiros e mecânicos da Renault tinham prestado depoimento, E várias evidências já tinham levado a FIA a acreditar que o acidente em Cingapura havia sido planejado.
Estudei muito bem a forma de fazer o relato, guardei o papel escrito à mão e tomei tanto cuidado de não deixar transparecer que acabei cometendo um erro. No domingo, antes da corrida, eu deveria ter prevenido o repórter Carlos Gil e o cinegrafista Luiz Demétrio para irem preparando o material que seria exibido no Fantástico, inclusive com imagens de Flávio Briatore e Symonds. Foi um erro. Ou será que eu tinha dúvida se aquele era mesmo o momento de revelar? Pelas mesmas razões _ eu acho _ também não havia combinado nada com o Galvão.
Com mais ou menos meia hora de corrida, olhei aquele meu papel pregado no vidro da cabine, nada estava acontecendo de importante na pista e resolvi começar a contar a história. Inseguro,nervoso pela gravidade da revelação, cometi outro erro. Acabei contando que já tinha ouvido a suspeita de vários pilotos, inclusive Felipe Massa. Me esqueci que na Ferrari até os pilotos estão sob constante vigilância e, minutos depois da revelação já tinha gente da Ferrari cobrando de Felipe Massa , que estava no Brasil. Mas minha intenção foi apenas dizer que a desconfiança já existia havia muito tempo. Rubinho Barrichello foi um dos que confessaram ter achado estranha a coincidência de o Nelsinho ter batido no momento dos pit stops e Alonso ter vencido.
Enfim, a revelação, desde o primeiro momento, já começava a me trazer problemas. Mas o importante é que ela tinha sido feita. Nasceu a denúncia que, antes de terminar a corrida, já estaria estampada em sites de jornais de todo o mundo. Foi destaque na edição do New York Times do dia seguinte.

A tensão

O furo satisfaz o jornalista, mas traz consigo uma tensão que machuca. Se o tema for tão polêmico como este envolvendo Renault e Nelsinho Piquet, a tensão começa quando junta tudo que apurou das fontes e conclui que existe o fato, e vai até além do momento em que toma a decisão de revelá-lo. Primeiro, por causa da reação das pessoas, que vai do espanto à dúvida. Chega um momento em que isso faz balançar a nossa própria confiança. Depois, com a bomba repercutindo em sites do mundo todo, aparecem as pessoas fazendo perguntas, querendo saber se fulano está envolvido e tentando interpretar à maneira delas.
Nessa caso de Spa, apesar da confiabilidade das fintes, para não correr risco de cair no descrédito, depois de jogada a bomba, eu precisava de uma confirmação da FIA, que só seria possível com a ajuda de uma pessoa muito bem relacionada no meio. É aí que entrou o trabalho do nosso produtor Jayme Brito, naquele momento com a função de meu anjo da guarda. Quando ele chegou na pessoa certa e levantou a questão, ouviu o seguinte comentário: “Pensei que eu fosse ter um fim de domingo tranquilo”. Aquilo já era uma confissão, mas precisávamos bem mais _ de uma declaração oficial. Demorou um tempo, mas conseguiram localizar i presidente Max Mosley. E, naquele começo de noite, veio a confirmação. Recuperei a respiração e a cor.
Algo assim tão grave um dia teria de vir à tona. Mesmo que seja pela intenção de Mosley de fisgar mais um de seus inimigos, o Briatore, o que importava era chegar aos culpados, em benefício do esporte. Mosley estava mesmo de saída. E enquanto eles se vingava, mais sujeira sairia. O ambiente em Spa, por causa dessa investigação, pesou. No domingo, Flávio Briatore teve aquela atitude incomum de pessoalmente ordenar aos mecânicos que fizessem Alonso abandonar a corrida quando foi constatado um defeito na roda dianteira esquerda. E, minutos depois, abandonou o autódromo.
A empresa contratada pela FIA para investigar coletou gravações de conversas de rádio entre equipe e pilotos da corrida de Cingapura, dados da telemetria do carro antes e depois da batida, depoimentos de engenheiros e alguns mecânicos. Na equipe Renault, nem todo mundo era culpado. E também ficava claro que Bernie Ecclestone já havia abandonado Briatore, um ex-parceiro de negócios.
Dias depois
Enquanto aguardávamos o voo para voltar ao Brasil, a Tatiana Cunha, da Folha de S. Paulo, me mostrou uma entrevista que o Nelsinho Piquet havia gravado depois da corrida de Cingapura para os brasileiros (além dela, Ico Ramos, da Rádio Bandeirantes, Felipe Motta, da Jovem Pan e Lívio Oricchio do Estadão). Após sabermos de toda a armação, as palavras dele naquele dia faziam mais sentido. Ele fez uma comparação com o benefício que havia tirado de uma situação parecida, no GP da Alemanha. Na ocasião, Timo Glock bateu pouco depois de Nelsinho ter feito seu pit stop e, graças a isso, terminou em segundo lugar. E ainda emendou dizendo que, apesar do acidente, estava feliz por ter beneficiado um piloto da equipe dele.
Bem mais tarde, quando o depoimento de Nelsinho perante a FA se tornou público, estava lá bem claro o trecho em que ele dizia que Pat Symonds havia usado o exemplo da corrida da Alemanha para convencê-lo a aceitar o plano de bater o carro na volta 14.
Duas semanas depois
Cheguei a Monza e me choquei. Que o ambiente estava fervendo eu já sabia. Mas não esperava que Briatore conseguisse convencer parte da imprensa mundial de que tudo não passava de uma mentira e que, com o apoio da Renault, ele estaria processando criminalmente os Piquet. Naquela sexta-feira de Monza apareceram os primeiros trechos do depoimento que Nelsinho Piquet prestara à FIA. Alguém permitiu que vazasse. Havia uma descrição detalhada do momento em que Symonds mostrou ao piloto um mapa do circuito, indicando o local exato onde deveria acontecer o acidente, a curva 17. Naquele ponto, por não haver guincho nem abertura lateral no muro, a batida provocaria, com certeza, a entrada do safety-car.
O conteúdo do depoimento também trazia duas das minhas informações até então carecendo de confirmação _ a de que Nelsinho chamou a equipe pelo rádio várias vezes perguntando se já estava na volta 14, a volta combinada para o acidente e que um engenheiro da Renault chegou a discutir a estranheza dos dados da telemetria, porque depois da primeira batida de um lado da pista, o piloto voltou a acelerar para atravessar a pista e bater do outro lado.
Três semanas depois
A Renault esperou terminar a corrida de Monza para informar que Briatore não tinha recebido qualquer tipo de apoio para processar Piquet. E mais: demitiu os dois dirigentes.
Briatore recorreu a Bernie Ecclestone, o ex-amigo de quem esperava uma defesa incondicional qualquer que fosse a situação. Claro que isso não aconteceu. Demorou para cair a ficha e Briatore entender que ninguém o derrubou. O que o fez cair de maduro foi a soberba. Aquele velho escorregão do ser humano quando se sente poderoso demais a ponto de imaginar que nada ou ninguém possa abalar o seu poder. Um erro capaz de derrubar governos não deixaria impune um simples empresário de sucesso na Fórmula 1.
Ecclestone. Como grande negociador de crises que sempre foi, até gostaria de ter resolvido esta antes do duelo final em que uma das partes acabaria mortalmente ferida. Mas Briatore não ouviu conselhos e, agora, enquanto cuida do seu clube Billionaire, casa noturna na costa da Sardenha, reduto de gente famosa e endinheirada, tem tempo de sobra para pensar em como foi pouco inteligente ao dizer para o tricampeão mundial Nelson Piquet, uma pessoa ainda muito bem relacionada e querida no ambiente, que não fazia questão de enxergar seus pilotos como seres humanos, mas que tudo ali, para ele, não passava de um negócio comercial.
No alto do pedestal em que se considerava inatingível, Briatore jamais poderia ver que ali, naquele momento, ele estava decretando o seu fim. Não demorou mais do que duas semanas para sentir que , com todos os computadores da Renault confiscados pela FIA, ele precisaria da benção de Bernie Ecclestone.
Nada feito. Briatore foi expulso do esporte Poe tempo indeterminado. Symonds, por cinco anos. Só então eu pude contar que meu informante tinha sido Nelson Piquet. Mantive a fonte em segredo enquanto era necessário. Ele fez com que eu fosse o primeiro a saber de cada novo acontecimento.Quando a FIA decidiu banir Briatore, eu fui acordado por telefonema do Nelson às 7 da manhã.
Nelsinho não recebeu punição, por sua delação premiada e porque estaria naturalmente punido por não ter lugar na F1. Fernando Alonso, mesmo estando claro que sabia da tramoia foi absolvido.
Revendo tudo o que se passou, considero extremamente importante o fato de ele (Nelson Piquet) nunca ter isentado Nelsinho de culpa. Mas, passada a perplexidade de quando ficou sabendo do caso, ele passou a agir como pai, tentando entender a reação do filho de 24 anos à época do acidente, acuado pelo chefe de equipe com o poder de demiti-lo ou renovar o contrato para 2009. A minha primeira reação, quando ouvi a história contada pelo pai, foi perguntar se ele sabia que a revelação deixaria em risco a carreira de Nelsinho. Ele tinha plena consciência disso. Mas não hesitou em exigir do filho que procurasse a FIA para contar a verdade. E foi assim que tudo começou.