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Ultrapassagem

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A ultrapassagem é, ao lado da largada, dos momentos mais importantes de uma prova. Se alguém pode ser atraído para olhar para a pista, no autódromo ou assistindo pela TV, é mesmo na largada e nas ultrapassagens. Normalmente o ponto ideal para a ultrapassagem é uma tomada de curva, pois é ali que os pilotos têm de frear. Nesse momento o sangue frio e a habilidade dos pilotos contam muito. O sangue frio para pisar no freio o mais tarde possível, e a habilidade para se contornar a curva sem sair da pista ou errando alguma marcha, o que pode comprometer aquilo que o sangue frio conseguiu.

Com a evolução dos carros, principalmente nos freios, as ultrapassagens foram ficando mais críticas e difíceis a ponto de serem raros momentos dentro de uma corrida. Os freios permitem frenagens poderosas. Um carro é capaz de se aproximar muito mais de uma curva antes dos freios serem acionados. Assim o tempo que os carros estão em frenagem disputando uma posição é muito menor.

Quantas vezes vemos uma iminente ultrapassagem não acontecer porque o carro da frente, apesar de não ter muita potência, freia tão dentro da curva que impede a manobra?

Outro motivo para dificultar as ultrapassagens é a aerodinâmica dos carros. Com maior “apoio”, a tendência é o carro ficar mais “preso” ao chão. Assim as velocidades possíveis nas curvas são cada vez maiores, sendo necessário usar menos freio nas tomadas.

Com a criação, em 2011, dos novos pneus da Pirelli, programados para se desgastarem nas primeiras 16/17 voltas, essa situação se modificou. Os novos pneus revolucionaram a Fórmula 1. As corridas voltaram a ser movimentadas por frequentes pit stops e ultrapassagens, quebrando todos os recordes existentes. Nas primeiras quatro corridas, segundo estatísticas mais conservadoras, houve pelo menos 205 ultrapassagens: Austrália: 26; Malásia: 37; China: 63; Turquia: 79. Esses números superavam os registrados em todo o campeonato de vários anos anteriores. Em 2012, foram feitas 1.139 ultrapassagens, 147 delas no GP do Brasil.

É fato que o número de ultrapassagens pode ser explicado também pelo uso da asa móvel, mas, com certeza, a maioria delas ocorreu na disputa de um carro com pneus novos e outro com eles já desgastados e com o desempenho comprometido.

Ultrapassagens em linha reta são obra de motores potentes e pouco apoio aerodinâmico. Alguns pilotos, na hora de fazer seu acerto para uma determinada corrida, preferem que o carro tenha menos apoio aerodinâmico para poder andar mais rápido nas retas. Pistas como Hockenheim, na Alemanha, e Monza, na Itália, sempre provocam essa atitude dos pilotos. Assim, uma ultrapassagem na reta pode ser obra desse acerto.

Uma ultrapassagem não é fruto apenas de um momento na prova. Ela é construída pela aproximação exata e pela preparação daquele momento. Às vezes o piloto que vai à frente tem um carro de acerto parecido e potência igual, assim é importante saber quando, onde e como atacar.

Emerson Fittipaldi venceu o GP da Bélgica na pista de Nivelles, em 1974, exatamente por saber isso. Depois de conquistar a primeira posição, ele tinha atrás de si Niki Lauda, então em sua primeira temporada pela Ferrari. O rápido austríaco tinha um carro mais potente, mas não tão equilibrado quanto o McLaren do brasileiro. Por mais de 20 voltas os dois exibiram uma regularidade impressionante, contornando todas as curvas do mesmo jeito. Niki colocava meio carro ao lado de Emerson na reta principal, mas tinha de recolher antes, pois ficava do lado de fora da curva, sem traçado, e não conseguia passar. Por 20 voltas eles repetiram a manobra, tirando o fôlego de quem via a corrida. Emerson venceu por 35 centésimos de segundo a frente de Lauda.

Nelson Piquet viveu um grande momento ultrapassando Ayrton Senna no GP da Hungria, em 1986. Os dois disputavam a ponta, com Senna segurando Piquet. Senna na Lotus, Piquet na Williams. Usando o traçado travado e estreito, Senna se defendeu como pôde. Piquet sinalizou o tempo todo uma ultrapassagem por dentro numa das poucas curvas largas da pista. Fez isso por várias voltas e Senna fechou a porta. Quando, mais uma vez, Senna esperava o ataque por dentro, Piquet atacou por fora e fez uma das mais espetaculares ultrapassagens da F-1.

Para Ron Denis, da McLaren, a melhor manobra de toda a história da F1 foi a ultrapassagem de Mika Hakkinen sobre Michael Schumacher, GP da Bélgica, em Spa-Francorchamps, no dia 22 de agosto de 2000.

Massa ultrapassa Sergio Pérez no GP da Austrália 2013

Pilotos, técnicos, especialistas e torcedores são unânimes em afirmar que a manobra de Mika Hakkinen na ultrapassagem sobre Schumacher foi daquelas de ficar na história da Formula Um. Talvez exagerando um pouco, Ron Dennis, chefe da McLaren, diz que foi a melhor manobra de toda a história da F1. Schumacher admite que se surpreendeu com o arrojo do rival: ”Mika fez uma manobra realmente excelente para passar por dentro. Seria impossível pelo meu lado”. Ricardo Zonta, que serviu de elemento catalisador da história (participou mas não influiu), diz que se surpreendeu quando viu os dos carros no seu retrovisor. “Eu fiquei no meio da pista e dei espaço pra eles.

Foi surpreendente ver eles passarem de cada lado do meu carro”. A manobra histórica aconteceu na 41ª volta. Hakkinen já tinha tentado ultrapassar, mas Schumacher fechou a porta e fez a curva na frente. Na volta seguinte, na reta, os dois alcançaram o retardatário Ricardo Zonta. Schumacher tirou o carro para a esquerda e provavelmente tenha pensado que Hakkinen seria retido pelo brasileiro. Surpreendentemente, Mika Hakkinen entrou pela direita, chegou a pisar na grama e saiu na frente, ultrapassando Zonta e Schumacher de uma vez só. Depois disso, foi só “correr pro abraço”.

Mas um verdadeiro recorde em matéria de ultrapassagem deve-se conceder a Rubens Barrichello. No dia 20 de julho de 2003 , em Silverstone, para ganhar o GP da Inglaterra, ele fez seis ultrapassagens.

A primeira foi sobre Kimi Raikkonen, na 10ª volta, quando o brasileiro tentava recuperar duas posições perdidas na largada. Na curva Abbey, Barrichello, segundo ele mesmo descreveu, colocou a Ferrari por fora na freada, porque sabia que ficaria por dentro na perna seguinte, à direita. Os dois carros ficaram emparelhados nas duas pernas da curva, mas o brasileiro acabou na frente na saída da segunda perna.

Na 15ª volta, Barrichello passou por Ralf Firman, na freada da curva Stowe; na 16ª, ultrapassou Ralf Schumacher, na saída da Abbey, para assumir a 7ª posição; na 36ª, na freada da Stowe, superou Olivier Panis e chegou ao terceiro lugar.

Mas a ultrapassagem mais sensacional e considerada pelo piloto uma das mais difíceis que já tinha feito, foi na 42ª volta, sobre Kimi Raikkonen, de novo. O finlandês liderava a prova e o brasileiro estava em segundo. Os dois saíram da curva Abbey quase juntos, emparelharam-se na curva seguinte, a Bridge, e, com mais tração, a Ferrari saiu um pouco à frente. Pouco mais adiante, Barrichello tomou a curva Priory por fora e não deu chance de defesa a Raikkonen. O brasileiro assumiu a liderança e não perdeu mais até completar as 60 voltas da corrida.

Planejar mal o momento da ultrapassagem pode levar o piloto passar pelo vexame de se ver ultrapassado logo em seguida. É o chamado “X”, quando o piloto que está atrás passa por dentro de uma curva e leva o troco ali mesmo, com o outro passando de volta pelo outro lado.

Senna, em vários momentos de sua carreira, faz belas ultrapassagens, mas nada pode se comparar à incrível primeira volta do brasileiro no GP da Europa, em 1993, na pista molhada de Donnington Park. De quarto para primeiro lugar em meia volta, ultrapassando por dentro e fora Michael Schumacher, Damon Hill e Alain Prost. Uma aula de coragem e habilidade

Na internet, há várias listas das 10 melhores ultrapassagens da F1. Cada um tem a sua. Uma delas é esta, que (incrível) não aponta as citadas acima:

  1. Senna (Toleman) sobre Lauda (Mclaren) na freada da curva Sainte Dévote, em Monte Carlo/1984.
  2. Piquet (Williams) sobre Senna (Lotus) por fora no final da reta dos boxes, em Hungaroring/1986.
  3. Mansell (Williams) sobre Piquet (Williams) na curva Stowe, em Silverstone/1987.
  4. Alesi (Tyrell) sobre Senna (Mclaren) dando um X no final da reta dos boxes, em Phoenix/1990.
  5. Mansell (Ferrari) sobre Berger (Mclaren) na curva peraltada, em Hermano Rodrigues/1990.
  6. Mansell (Williams) sobre Prost (Ferrari) no final do túnel, em Monte Carlo/1991.
  7. Mansell (Williams) sobre Senna (McLaren) no final da reta dos boxes, em Barcelona/1991.
  8. Prost (Williams) sobre Senna (McLaren), em Silverstone/1993.
  9. Barrichello (Stewart) sobre Schumacher (Ferrari) dando um X na freada da curva Adelaide, após a passagem pela reta dos boxes, em Magny-Cours/1999.
  10. Schumacher (Ferrari A) sobre Barrichello (Ferrari B) na linha de chegada, em Zeltweg/2002.

Em 2012, foram várias as ultrapassagens que poderão ser incluídas na história da F1. As mais lembradas são:

1 – Kimi Raikkonen sobre Michael Schumacher na Eau Rouge, em Spa-Francorchamps. Kimi colocou sua Lotus na esquerda na entrada da curva e surpreendeu o alemão.

2 – Em Valência, 11º no grid, Fernando Alonso ganhou três posições na largada e, depois da parada no box, passou por Mark Webber, Bruno Senna e Paul di Resta, assumindo o 4º lugar. Em seguida, passou por Lewis Hamilton e Romain Grosjean e, beneficiado pelo abandono de Sebastian Vettel, ganhou a corrida.

3 – No GP de Abu Dhabi, Sebastian Vettel  largou dos boxes, fez uma corrida de recuperação e encerrou a corrida com uma arriscada manobra para surpreender e ultrapassar Jenson Button. Terminou em 3º e manteve a boa vantagem sobre Fernando Alonso.

No Blog do mulsanne.com.br (http://blogmulsanne.blogspot.com.br/), JJuliano Barata, traduz  texto de vídeo da F1 Insight,  em que Martin Brundle e Mark Blundell, ex-pilotos e ex-companheiros das equipes de Fórmula 1 Ligier e Brabham, demonstram,  no autódromo de Silverstone,  diferentes técnicas clássicas de ultrapassagem e defesa utilizados na categoria, e quais são as dificuldades:

 The Tow – “A Carona”: ultrapassagem clássica em retas, utilizando o “vácuo” formado pelo carro imediatamente à frente. A contrapartida no processo de aproximação é a dificuldade de se manter proximidade com o bólido à frente nas curvas. O fluxo de ar turbulento deixado pelo mesmo resulta em perda de pressão aerodinâmica na parte frontal do carro atacante; resultando em sub-esterço.

The Block – “A Fechada”: técnica de defesa em retas. Consiste em antecipar a mudança de direção do carro atacante, bloqueando sua passagem. Só é permitida uma única mudança de direção no trecho de reta onde ocorreu a defesa.

The Dummy – “O Drible”: técnica de ataque usada para superar a anterior. É quase que literalmente um drible. Ameaça-se abrir para um lado, provocando assim o “The Block” por parte de quem está se defendendo, mas subitamente ataca-se pelo outro lado; deixando quase ou nenhum tempo para reação do rival.

The Switchback – “O Xis”: técnica de contra-ataque. Induz-se o atacante a ultrapassar por dentro e forçar o ponto de frenagem ao limite, provocando a famosa “espalhada” para fora na entrada da curva. Assim, pode-se contra atacar repassando pelo lado de dentro ainda próximo do ponto de tangência.

The Hang Out – “A segurada”: maneira de o atacante sobreviver ao “Xis”. Nem sempre é possível de ser realizado. Basicamente deve-se controlar o espaço na pista, na entrada e início do ponto de tangência, de maneira que não haja área para o piloto rival realizar seu contra-ataque pelo lado de dentro. Controla-se esse espaço seja não deixando asfalto suficiente no lado de dentro, seja mantendo-se o carro meio paralelo ao do rival, de maneira que este não consiga passar para o lado de dentro da curva.

Vídeo de ultrapassagens no Youtube:

Estatística sobre as temporada de 2012, principalmente pneus e ultrapassagens pode ser vista em:

http://autoracing.virgula.uol.com.br/estatisticas-da-f1-em-2012-gp-do-brasil-bate-recorde-de-ultrapassagens/

O site Fórmula1.com publicou um vídeo com as cinco melhores ultrapassagens da Fórmula 1 nos últimos cinco anos. Confira:

http://www.formula1.com/content/fom-website/en/video/2015/8/Top_5_overtakes_from_the_last_5_years.htm

Há 29 anos

A exatos 29 anos, nesta data, Nelson Piquet viveu um dos  melhores momentos da carreira, ao ultrapassar Ayrton Senna, no GP da Hungria. Os dois disputavam a ponta, com Senna segurando Piquet. Senna na Lotus, Piquet na Williams. Usando o traçado travado e estreito, Senna se defendeu como pode. Piquet sinalizou o tempo todo uma ultrapassagem por dentro, numa das poucas curvas largas da pista. Fez isso por várias voltas e Senna fechou a porta. Quando, mais uma vez, Senna esperava o ataque por dentro, Piquet atacou por fora e fez uma das mais espetaculares ultrapassagens da F-1.