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Jean-Marie Ballestre

marie_01Podia-se criticar muito o jeito autoritário de Jean-Marie Ballestre, o dirigente mais conhecido do automobilismo mundial. Mas é impossível não reconhecer que foi graças a esse francês, que foi presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e da Fisa (o braço esportivo da entidade), que as corridas de automóvel em todo o mundo se profissionalizaram e deixaram para trás uma época de romantismo e acidentes fatais. Ballestre foi o “cartola” que mais se preocupou com as questões de segurança nas competições e na Fórmula 1 em particular.

O público brasileiro transformou Ballestre em seu inimigo público número 1 no final de 1989, depois que Ayrton Senna foi desclassificado do GP do Japão e perdeu o título mundial para seu arquirrival Alain Prost. Senna ganhou a corrida de Suzuka na pista, mas acabou eliminado porque cortou uma chicane, depois de bater no carro de seu companheiro de equipe.

A desclassificação já seria motivo suficiente para despertar o ódio do torcedor de Ayrton, mas este se encarregou de jogar lenha na fogueira atribuindo a decisão a uma suposta perseguição de Ballestre, que era amigo de Prost e não gostava dele, Senna. De fato, quando a FIA julgou o recurso da McLaren, que apelou da desclassificação de Senna, mesmo sabendo que prejudicaria seu outro piloto, Ballestre conseguiu que o brasileiro fosse suspenso por seis meses, com “sursis”. Ou seja: Ayrton ficou meio ano sob os olhos atentos dos dirigentes, correndo o risco de ter que cumprir a suspensão caso fizesse alguma coisa que os desagradasse. E mais: no final daquele ano, ao saber das declarações de Senna (“Fui roubado” foi o mínimo que ele falou), Ballestre ameaçou caçar a superlicença do piloto, o que o impediria de disputar o Mundial de 1990.

Ballestre costumava dizer que não era um ditador, mas sim “um patrão”. “Tenho alma democrática”, garantia o filho de camponês, nascido no dia 9 de abril de 1921, em Saint Rémy de Provence, no sul da França. Ele começou sua carreira aos 16 anos como contínuo do “Auto-Journal”, uma das primeiras revistas européias especializadas em carros.

O período da Segunda Guerra Mundial é o mais controvertido de sua história. Muitos o acusam de ter colaborado com os nazistas na ocupação da França. Existem, até, fotos de Ballestre fardado à frente de um enorme retrato de Adolf Hitler. Apesar de ser filho de um ex-combatente da Guerra da Espanha que lutou ao lado dos republicanos, Ballestre aderiu desde cedo à “Jovem Frente”, um movimento de extrema direita simpatizante das teses fascistas. Fez muitos amigos nessa época, entre eles o dono do jornal conservador “Le Figaro”, Robert Hersant.

Um dos muitos desafetos que Ballestre amealhou pela vida chegou a montar um dossiê, em 1984, que provava seu envolvimento com os nazistas. Claude Bourillet, presidente da Federação Francesa de Esportes Automobilísticos em 67 e 68, conseguiu documentos mostrando que Ballestre, em 1943, era membro da Waffen SS, uma tropa de elite alemã. O ex-presidente da FIA se defendeu das acusações dizendo que agia “protegido pela Resistência e de acordo com ela”.

Bourillet rebateu garantindo que a Presidente do Comitê de Ação da Resistência, Marie Madeleine Foucade, negou que Ballestre pertencesse aos quadros da organização e ainda informou que ele recrutava jovens franceses para lutar contra a Resistência.

O documento mais eloqüente levantado por Bourillet é um exemplar do jornal pró-nazista “Devenir”, de maio de 1944, com um artigo de primeira página assinado por Ballestre, cujo título é “Os soldados do Führer”, no qual ele defende os franceses que foram recrutados pela SS, “que sabem que a França poderá participar do triunfo” de Hitler.

marie_02Quando a guerra acabou, Ballestre voltou ao automobilismo pelas mãos de seu amigo do “Le Figaro”, que o colocou na direção do “Auto-Journal”. Em 1968, Ballestre fundou a Liga de Karting de Sarthe e acabou sendo escolhido secretário da Federação Francesa de Esportes Automobilísticos, até chegar à presidência da entidade, em 1973. Cinco anos depois ele assumia a CSI (Comissão Esportiva Internacional) da FIA, órgão que em 1979 seria substituído pela Fisa. Mais tarde, acumularia o cargo com a presidência da FIA.

A primeira grande batalha travada por Ballestre aconteceu em 1980. Ele tentou impor várias modificações técnicas na F-1 para incrementar a segurança, com medidas que mexiam no bolso dos donos de equipe, pois teriam que mudar muito seus carros. Foi o bastante para Bernie Ecclestone, proprietário da Brabham e presidente da recém-criada Foca (Associação dos Construtores de F-1), espernear. “Quem manda nas pistas são as equipes”, disse o dirigente. Os pilotos, no entanto, estavam do lado de Ballestre. “Quem corre riscos somos nós”, falou Jody Scheckter, na condição de campeão mundial de 1979 pela Ferrari e presidente da GPDA, a Associação dos Pilotos de Grand Prix.  A médio prazo, Ballestre ganhou a briga, extinguindo as minissaias que criavam o perigoso efeito-solo; aumentando os cockpits; recuando a posição do piloto dentro do carro e adotando uma série de medidas que deixaram a F-1 sem mortes em GPs de 1982 a 1994.

Fumante inveterado (queimava dois maços de Gitanes por dia), Ballestre se orgulhava de ter transformado a FIA numa entidade lucrativa, livre de pressões políticas ou de patrocinadores. Defensor irredutível dos regulamentos, ao longo dos anos, comprou brigas que o foram desgastando junto aos presidentes de federações filiadas à FIA e à Fisa. Em outubro de 1991, entregou o bastão da parte esportiva, a Fisa, a Max Mosley. Em 1993, a Fisa foi extinta e Mosley assumiu a presidência da FIA no lugar de Ballestre. Ele, no entanto, continuou ligado à Federação Francesa, como membro de vários conselhos da FIA. Mesmo longe do poder, Ballestre continuava exercendo-o à sua maneira.

Jean Marie Ballestre morreu em Paris, numa quinta-feira, dia 27 de março de 2008, aos 86 anos de idade.

FRASES

“Temos que dar uma lição nesse moleque”

Sobre Senna/89

“Senna apodreceu o Mundial de Fórmula 1”

Idem/89

“Não sou um ditador, sou um patrão. Lutei para poder ser reconhecido no mundo como o patrão da Fórmula 1. E consegui”

outubro/89

“Vim ao Brasil pelo prazer perverso de enfrentar a massa em delírio”

Março/90, quando veio ao Brasil para assistir o GP em Interlagos apesar do ódio dos torcedores

“Eu sou a minha própria segurança”

Idem

“Vou a Interlagos nem que precise usar um colete à prova de balas”

Idem, dez dias antes da corrida

“Sou mais popular que Senna. Sou uma celebridade”

No dia do GP do Brasil de 1990, enquanto era vaiado pelo público