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Entrevista polêmica

Prost: “Nunca aprendi nada com Senna”

entrevista_01A edição de março de 2008 da revista inglesa “Motor Sport” trouxe uma entrevista de Alain Prost ao jornalista Pascal Dro, falando de Ayrton Senna..
Conforme tradução do site  http://autosport.clix.pt/, começou recordando seu primeiro encontro com Senna, em 1984, quando a Mercedes organizou uma corrida em Nürburgring para lançar o modelo 190. A montadora convidou pilotos em atividade e alguns que já tinham parado de correr. Uma prova de estrelas.

“Ayrton chegou meia hora depois de mim e me pediram para lhe dar uma carona até o hotel. Ele percebeu de cara que eu dirigia muito rápido! Disse que eu era doido e que guiava rápido demais.. Foi nosso primeiro encontro. Ele não conhecia muita gente naquele mundo novo para ele, e ficou muito do meu lado, porque havia gente de outras gerações, como Jody Scheckter e Denny Hulme”, contou o francês.

De acordo com Prost, já naquela corrida deu para perceber a atitude competitiva ao extremo de Senna. “Você sabe o que acontece quando coloca 15 ou 20 pilotos ao mesmo tempo numa pista…”, disse. “Eu estava na pole e ele em segundo. E ele queimou a largada, saiu antes da bandeirada. Bem, não era uma corrida de verdade, mas aquilo me irritou muito. Achei que foi um pouco demais. Era nosso primeiro encontro, e já houve certo constrangimento.”

Alain descreveu Ayrton como uma pessoa de “personalidade especial e diferente”. “Ele era um pouco teatral, também. Tinha um discurso muito elaborado. Fazia longos silêncios e disparava três frases feitas. E tinha assessoria de imprensa desde a F-3! Ninguém fazia isso naquele tempo. Nunca soube se seu ar misterioso era natural, ou apenas parte de seu jogo. Mas tenho de admitir que isso agradava a imprensa.”

Um dos momentos “teatrais” lembrados por Prost foi numa coletiva em Mônaco, quando Senna disse que se viu fora do cockpit, olhando para ele mesmo pilotando. “Se uma pessoa diz isso hoje, vão o pôr numa camisa-de-força e o cara nunca mais guia um F-1! Mas isso fazia parte de sua personalidade.”

No trecho mais polêmico, o tetracampeão fala sobre seu relacionamento com Senna nos tempos de McLaren. O jornalista pergunta se ele aprendeu algo com o brasileiro naqueles dois anos, 1988 e 1989. “Pode parecer um pouco pretensioso de minha parte, mas para ser honesto… nada. Aprendi muito com Niki Lauda, eu era muito mais jovem que ele. Ayrton estava na mesma posição comigo. E acho que ele aprendeu muito comigo. Sua maior habilidade era otimizar o carro para uma volta rápida. Especialmente o uso dos pneus de classificação, o que para mim era algo que importava pouco. Na Ferrari, quase sempre eu me classificava usando pneus de corrida.”

Prost acha que a capacidade de ser rápido em classificação era o ponto forte de Senna. “Mas no que diz respeito ao que ele fazia em corrida, não aprendi nada com ele. Para Ayrton, o ‘qualifying’ era tudo que importava. Ele olhava o que eu fazia e depositava todo seu esforço na classificação. Era seu ponto forte. Se ele tinha um, era esse. Vou ser franco: muitas vezes, o que ele conseguia nos treinos me surpreendia. Me espantava, às vezes. Em corrida, Ayrton nunca me impressionou. Mas em classificação, sim.”

A rivalidade entre os dois foi tão grande que Prost admite que, em um determinado momento, ele “passou a fazer parte da minha família”. “Houve um período na minha carreira em que só ele me importava. Eu simplesmente esqueci os outros pilotos. Nós dominávamos a F-1 de tal forma que os outros eram apenas uma abstração. E apesar de tudo, nós sempre nos falamos. Mesmo nos piores momentos. Podíamos não conversar entre as reuniões técnicas, mas durante os encontros com os engenheiros, falávamos clara e honestamente. Pelo menos de minha parte. E se um dia eu tive alguma dúvida sobre o lado dele, acho que elas se perderam no tempo. O mesmo não posso dizer da Honda. Mas no que diz respeito a acerto de chassi, nunca tive nenhuma suspeita.”

A Honda, na opinião de Prost, fez muito rapidamente uma clara opção por Senna. Para o francês, o tratamento diferenciado dado pelos japoneses ao brasileiro era visível. “Psicologicamente, era algo que me destruía. A Honda não jogava limpo comigo. Não tínhamos o mesmo tratamento. Lembre-se que naqueles dias, as áreas de chassi e motor eram muito mais separadas do que hoje. Na Honda, eles queriam escolher quem iria vencer. Não tenho dúvidas sobre isso.”

Os dias que antecederam o acidente que matou Ayrton, em Ímola, também estão bem vivos na memória de Prost. “Nunca nos falamos tanto quanto naquelas semanas. Antes, ele não me telefonava muito. Mas depois que eu parei, começamos a nos falar, e ele demonstrava preocupação. Primeiro, se decepcionou com a Williams. Era diferente da McLaren, onde ele era o número um sem questionamentos. Na Williams, encontrou um ambiente muito britânico, difícil. Depois, estava desconfortável no carro. Eu disse a ele que o carro não era tão fácil de guiar como diziam.

O desenho dele era esquisito. Disse a Ayrton, a posição de dirigir era a mesma que fizeram para o Mansell dois anos antes. Eu guiei daquele jeito! O volante ficava muito para baixo e a posição de pilotagem era extremamente complicada. Disse a ele para insistir, pedir. E ele estava preocupado com segurança. Me pediu várias vezes para levantar a questão na GPDA. E, além disso, estava convencido de que a Benetton estava roubando. Mas, sobretudo, estava com problemas pessoais e se sentia sozinho, desmotivado para desafiar os outros pilotos.”

É aí que entra outro trecho dos mais significativos da entrevista de Prost à “Motor Sport”: o papel que ele, Alain, teve na carreira de Senna. “Ele nunca me falou que ia parar, mas falou sobre a falta de motivação. As pessoas não têm idéia do que significou, para ele, chegar à F-1, tentar me derrotar e conseguir. Eu era seu ponto de referência. Quando parei, ele perdeu isso.

E em meio a muitas outras questões, uma era fundamental. Ele não sabia mais o que estava fazendo na F-1. Era como se tivesse perdido um objetivo. Ele usava nossa rivalidade como forma de se motivar. E aí a guerra acabou no GP da Austrália de 1993, minha última corrida. Nos falamos muito pelo telefone naquele inverno. Estava chegando uma nova geração, as coisas estavam diferentes, sei lá… Não dá para saber exatamente o que estava se passando por sua cabeça.”

O 1º de maio de 1994 não sai da cabeça de Alain, que se encontrou com Senna no domingo pela manhã no autódromo, depois da morte de Roland Ratzenberger, no sábado. “Foi desconcertante. Ele não era a mesma pessoa. Eu estava almoçando no motorhome da Renault, em frente ao da Williams, e ele veio falar comigo. Fiquei espantado. Nem lembro bem o que conversamos, mas me lembro como fiquei assustado com aquilo, porque era uma das coisas mais improváveis do mundo o Ayrton sair de onde estava para vir falar comigo no meio de um monte de gente. Antes da largada, fui aos boxes da Williams e falamos de novo sobre a Benetton. Perguntei como se sentia, e ele me respondeu que não estava muito otimista para aquela corrida.

Foi a última vez que nos vimos. No grid, notei que ele ficou sem o capacete. Normalmente ele parava o carro e ficava de capacete, mas naquele dia foi diferente. Parecia nervoso. Você pode imaginar um monte de coisas. Falaram até em suicídio, mas não acredito nisso.”

Prost reconhece que o mito Ayrton Senna continuou a crescer depois de sua morte.

“É algo irracional. As pessoas olham para o passado e dizem que nada mais é como era naqueles tempos, embora eu olhe para as disputas entre Hakkinen e Schumacher, ou Hamilton e Alonso, e considere até mais intensas que a nossa. Mas as pessoas não enxergam assim. Há um grande impacto quando se olha para o passado, é assim que os mitos crescem. Não aconteceria com uma pessoa viva. Não aconteceu com Schumacher, embora ele tenha conquistado sete títulos mundiais. Ele teria de ganhar sete campeonatos e morrer em sua última corrida para isso acontecer com ele. É engraçado, mas é assim…”

12/07/2012 – 12h38

Prost assiste ao filme de Senna e confessa: “Fiquei chateado”

Do Tazio, em São Paulo

Alain Prost até resistiu, mas acabou assistindo ao filme “Senna”, sobre a carreira do piloto brasileiro na F1. No começo do ano, o francês afirmou que não queria ver o documentário, já que não concordava com a linha escolhida pelos produtores para contar a história, em que ele era retratado como um vilão.

Na última semana, em entrevista durante o Festival de Velocidade em Goodwood, na Inglaterra, o tetracampeão admitiu que assistiu ao filme e que não ficou contente.

“Estou muito, diria, chateado. Explico em 30 segundos: gastei muito tempo filmando para isso, fiquei muitas, muitas horas tentando explicar as coisas. Tínhamos um Ayrton Senna antes da F1, um Senna de quando lutávamos na F1 e tínhamos um Ayrton Senna de quando eu me aposentei”, afirmou Prost.

“Então, tem o lado humano da história com duas personalidades e as pessoas entenderiam muito melhor o que aconteceu quando brigávamos, pois ele estava lutando assim, e as pessoas entenderiam melhor os últimos três ou quatro meses, quando ele me ligava quase que uma ou duas vezes por semana para me fazer perguntas, me pedindo para voltar a GPDA [Associação dos Pilotos de Grandes Prêmios], fazendo perguntas sobre a Williams, sobre segurança, sobre vida pessoal. Segredos muito grandes que nunca vou contar a ninguém”, continuou.

Apesar de não ter gostado da forma do resultado final do filme, Prost ainda disse que o documentário é uma peça comercial, que precisa seguir uma receita para fazer sucesso e agradar aos fãs.

“No final, eles queriam fazer uma coisa comercial seguindo a linha do bom e do mau. Não me importo muito em ser o vilão”, concluiu.