Cronometragem

A cronometragem, técnica de medição do tempo, é uma das operações mais sensíveis durante uma corrida da Fórmula 1. Com motores a 18.000 rotações por minuto; velocidades de 0 a 100 km/h em 2,2 segundos; de 100 a 0 em 3 segundos e que variam entre 80 e mais de 340 km/h, registrar exatamente, sem riscos de erros, é uma tarefa difícil e exige tecnologia ultra sofisticada.  O sistema de cronometragem de alta precisão usado em 2013 permite medir, simultaneamente, tempo e velocidade de todos os carros em cada trecho da pista, estabelecendo diferença de um milésimo de segundo. Mas nem sempre foi assim.

Nos primeiros anos da categoria, na década de 1950, a verificação dos tempos era feita manualmente. A exigência de exatidão não passava de 1 décimo de segundo. Nessa época, a cronometragem era feita pelos amigos ou esposas de piloto ou pelas próprias equipes, e suas anotações manuais eram, posteriormente, conferidas com as da organização, para a formação do grid de largada. Para a cronometragem da corrida, cada organizador tinha a sua empresa técnica, provocando distorções evidentes em circuitos com as mesmas características.

Em 1954, quando a volta mais rápida era bonificada com um ponto, no GP da Inglaterra, em Silverstone, o mesmo tempo, 1m50s, foi atribuído a sete pilotos: Alberto Ascari (Maserati), Jean Behra (Gordini), Juan Manuel Fangio (Mercedes), José Froilan González (Ferrari), Mike Hawthorn (Ferrari), Onofre Marimon (Maserati), e Stirling Moss (Maserati Moss). Cada um deles recebeu 0,142857 de ponto. Nos anos 1960 já se conseguia exatidão de um centésimo de segundo, mas as diferenças de um milésimo de segundo só começaram a ser registradas a partir dos anos 1980, com a responsabilidade pela cronometragem em todos os GPs atribuída a uma única empresa.

A primeira empresa a se envolver com a cronometragem na F1 foi a suíça Heuer que, segundo sua versão, já em 1950 fornecia cronômetros manuais de alta precisão a várias equipes. No final dos anos 1950, ainda conforme a empresa, a Heuer desenvolveu uma placa de cronometragem com três cronômetros mecânicos, que indicavam o tempo da volta anterior; o tempo da volta em andamento e, a partir de zero, o tempo da volta seguinte.

Na década de 1960, a Heuer criou um teclado elétrico, operado por único cronometrista, que apertava uma tecla, a cada carro que atravessasse a linha de partida/chegada, acionando uma impressora para gravar os tempos. Mais tarde, a operação passou a ser feita por uma equipe: o encarregado de pressionar a tecla; o ”camelô”, que anunciava os números dos carros; um segundo cronometrista, encarregado de combinar os tempos registrados pela impressora, com a ordem dos carros “cantados” pelo “camelô” e calculadores, responsáveis por registrar os detalhes da corrida, como tempos de volta, ordem de chegada e diferenças de tempo.

A primeira empresa contratada para fazer a cronometragem oficial da F1, todavia, não foi a Heuer, apesar de sua ligação com a categoria. Foi a também suíça Longines, fundada em 1832, que desde 1980 tinha trabalhado com a Ferrari e a Renault e que, em 1982, foi contratada pela Fórmula 1. A contribuição da fábrica de relógios à evolução da cronometragem foi a introdução de um mecanismo disparado por fio elétrico, que tornava mais precisa a contagem do tempo. Essa associação perdurou por quase 10 anos e foi interrompida em 1991, depois que, em 1985, a Longines foi vendida ao empresário que viria a criar o grupo Watch.

A substituta da Longines como cronometrista oficial da Fórmula 1, como era de se esperar, devido à sua longa experiência na categoria e os avanços tecnológicos que desenvolveu, foi a Heuer, fundada em 1860, por Edouard Heuer. Jack Heuer, dirigente máximo da empresa na época, contou que a associação com a F1 começou em 1969, quando ele pretendia divulgar um novo cronometro automático. Ele contratou o piloto suíço Jo Siffert para usar a logomarca no macacão e um relógio da empresa no pulso.

Portanto a marca foi a primeira não fabricante de produto automotivo a patrocinar a F1. Siffert levou a Heuer a Clay Regazzoni, piloto também suíço, e este o apresentou à Ferrari. Assim, em 1971, diz o diretor da empresa, “entramos definitivamente na F1”. Durante 10 anos, a Heuer cuidou da cronometragem na pista da Ferrari em Maranello e foi cronometrista oficial da equipe nos Grandes Prêmios. Em Maranello, instalou 45 fotocélulas ao redor da pista, permitindo aos engenheiros acompanharem o desempenho do carro em todo o percurso. A parceria também criou o Centigraph, um sistema originário do que a fábrica usava para acompanhar os carros nas 24 Horas de Le Mans. Minitransmissores com frequências diferentes instalados em cada carro e uma antena na linha de partida/chegada permitiam a identificação e a tomada de tempo simultânea de 20 carros.

A precisão, e decorrente credibilidade do sistema, foram comprovadas em 1978, no GP dos Estados, em Long Beach, quando, em comparação várias outras empresas diferentes, apresentou resultados considerados mais confiáveis e a Heur tornou-se referência no automobilismo.  Em 1985, comprada pela Téchniques d’Avant-Garde, fabricante de artigos de alta tecnologia, como tubos cerâmicos para carros da F1, a Heuer transformou-se na TAG Heuer e firmou sua posição em todas as categoria profissionais do esporte a motor.

Em 1999, foi vendida ao grupo LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton), por 658 milhões de euros.  Em 1986 fez uma parceria com a McLaren, mantida até hoje. De 1992 a 2004 fez a cronometragem oficial do campeonato mundial da F1. Trocou a F1 pela então IRL (Indy Racing League), hoje IndyCar, dos Estados Unidos da América, segundo o técnico Jean Campiche disse ao jornal “La Gazetta dello Sport”, “por não poder prestar serviços adequados aos dois campeonatos”. Depois da TAG Heuer, foram responsáveis pela cronometragem da F1 a Siemens, de 2004 a 2007; a LG (LG Eletronics – Lucky Goldstar Eletronics) multinacional sul-coreana, de 2008 a 2009, e a empresa suíça Hublot, de 2010 a 2012.

Em dezembro de 2012, a FOM assinou contrato de longa duração com a fábrica de relógios suíça Rolex, que é, a partir de 2013, a cronometrista oficial da F1 e poderá exibir a sua logomarca ao longo da pista. Um relógio foi criado especialmente pela Rolex para ser colocado em todos os circuitos do campeonato. Desde a década de 80, as empresas Olivetti, Siemens, Bakersville e LG se encarregaram de fornecer equipamentos e recursos tecnológicos para exibição da cronometragens, dados da telemetria e informações sobre a corrida em 150 monitores, vistos pelos pilotos, direção da prova, equipes, emissoras de televisão e imprensa e até convidados.

A cronometragem da corrida é feito por dois sistemas que funcionam de forma independente. Cada carro tem uma unidade transmissora, com frequências diferentes, colocados próximo à suspensão traseira. O sistema principal capta as informações sobre tempo e velocidade transmitidos por esses transponders  a 18 antenas distribuídas ao longo da pista e do pit lane, e indicam o tempo e velocidade nos setores 1 e 2 e 3 (que coincide com a linha de chegada), além dos pit stops. O sistema secundário é formado por duas fotocélulas infravermelhas, colocadas na linha de chegada e que registram a passagem dos carros a cada volta.

Todos os dados são repassados à Torre de Cronometragem, localizada sobre a linha de largada/chegada, que os processa e exibe instantaneamente em três painéis a cada passagem dos carros. Um painel mostra as informações às equipes, direção da prova e mídia; outro gera os caracteres transmitidos pelas emissoras de TV, com dados dos pilotos e diferenças entre eles; um terceiro, distribui imagens das câmeras instaladas nos carros e cujos sinais são captadas por um helicóptero que sobrevoa o circuito. A velocidade nos boxes é aferida pela passagem entre as antenas do pit lane e, em frente a cada box, um sensor registra o tempo de parada dos carros. Sensores instalados em cada posição do grid denunciam qualquer movimento do carro antes de autorizado o início da prova.