Desenvolvimento do automóvel

1_1_2IAO desenvolvimento do automóvel, depois de sua invenção enfrentou muitas dificuldades, principalmente porque naqueles tempos era praticamente impossível imaginar a criação de um mercado para seu consumo. Os contemporâneos de Daimler e Benz não se mostraram capazes de reconhecer o potencial por trás dos inventos dos dois. Muitos  especialistas apostavam então nas máquinas a vapor de três rodas.

Os dois inventores que no mesmo ano fizeram as descobertas que permitiram a motorização jamais se  encontraram pessoalmente, apesar de separados por poucos quilômetros. A fusão entre os dois grupos aconteceu em 1926, quando Daimler já havia falecido há 26 anos e Benz contava 82 anos de idade. As duas empresas, que iniciaram suas atividades construindo motores industriais,  no momento da fusão  davam preferência  à produção de veículos utilitários.

A maioria dos historiadores concorda em que os dois alemães foram os primeiros a elaborar a concepção de um conjunto motor/ veículo que um dia iria permitir a construção industrial em série de automóveis. Mas não se pode afirmar quem realmente inventou o automóvel, uma vez que todo invento se baseia em descobertas anteriores.

Para se ter uma idéia, existem registros de que o primeiro motor do mundo teria aparecido pouco mais de um século antes de Cristo e que este motor seguia o princípio físico de ação e reação . Teria sido um motor térmico que trabalhava pelo impulso de jatos. Os registros deste motor estariam nos fragmentos dos livros do próprio inventor, o matemático, físico e  filósofo alexandrino Hero.

Apesar dos registros históricos serem falhos,  muitos outros homens dedicaram-se à idéia de substituir a força animal por energia técnica e mecânica. Leonardo da Vinci, por exemplo, desenhou um carro movido a molas.

Há desenhos de carruagens sem cavalos datando do final do século XV, mas essas primeiras tentativas movidas por manivelas pedais e o vento pouco uso poderiam ter nas precárias estradas daquela época.  Tem-se notícia dos primeiros estudos sobre o uso do vapor para impulsionar veículos por volta de 1580.

O cientista italiano Giovanni Battista Della Porta inventou, em 1589, uma bomba capaz de levantar água através de pressão do vapor. Algum tempo depois,  outro italiano, Giovanni Branca,  colocou em prática esta idéia construindo o primeiro motor a vapor, ainda que muito rudimentar.

1_2_1IO primeiro veículo autêntico movido a vapor parece ter sido o do francês Nicolas Joseph Cugnot,  que em 1771 construiu um trator de três rodas destinado a rebocar peças de artilharia. Apesar de seu enorme tamanho, a caldeira não tinha capacidade suficiente para mover o veículo a uma velocidade razoável não passando de 1 km por hora. Em 1784 o fisíco inglês, James Watt aperfeiçoou o rudimentar motor a vapor e patenteou uma carruagem a vapor.

Outro inglês merece referência nessa história. É Julius Griffiths, que em 1821 inventou e construiu um ônibus. Mas foi Walter Hancock que em 1831 aperfeiçou uma frota de veículos iniciando um serviço regular de transporte de passageiros entre Londres e pequenas cidades do interior. Com uma série de deficiências, esses veículos chegaram a provocar diversos acidentes levando o parlamento inglês a adotar, em 1839, medidas rigorosas de controle de velocidade.

Na França, o primeiro motor a gás foi o de Lenoir, inventor belga , patenteado em 1859. Era um motor de dimensões reduzidas, com força suficiente para mover uma carruagem. Em 1863, Lenoir construiu um segundo carro que levou três horas para realizar um percurso de 10 km numa viagem de ida e volta de Paris a Vincennes.

A legislação anticarruagens a vapor, de 1839, foi se agravando cada vez mais e em 1865 surgiu, na Inglaterra, a Lei de Locomoção. Esta lei limitava a velocidade dos veículos a vapor a cerca de 7 km por hora na estrada e a cerca de 3 km por hora nas cidades. Outra curiosidade é que esta legislação tornava obrigatória a presença de um homem caminhando na frente do veículo com uma bandeira vermelha. A bandeira vermelha deixou de ser obrigatória depois de uma emenda à lei aprovada em 1978, mas continuou sendo usada, em muitos casos.

Estas restrições são apontadas por muitos como causas para o fracasso do automobilismo na Inglaterra dessa época. Mas o principal inimigo do desenvolvimento do automóvel em meados do século XIX não foram tanto as leis, mas ao caráter diletante dos engenheiros que se dedicavam a experimentar veículos de força própria. Não havia um mercado regular para carruagens a vapor.

O aparecimento da bicicleta apressou a evolução do automóvel. A produção de bicicletas ensinou os engenheiros a utilizar estruturas leves e fortes. A popularização desse veículo incentivou a construção de estradas e o desenvolvimento de hotéis, que estavam abandonados desde que as estradas de ferro haviam suplantado as diligências.  Por volta de 1880, muitos automóveis de três e quatro todas, baseados nas técnicas usadas na fabricação de bicicletas começaram a surgir.

1_1_4I2Uma das figuras mais importantes dessa época, chamada por alguns historiadores como a Idade Média do automobilismo, na França, foi um fabricante de sinos de Le Mans, Amédée Bollée, que, em 1871, instalou uma pequena oficina para desenvolver uma carruagem sem cavalos que fosse prática. Em 1873, Bolée projetou e construiu um veículo que chegou a desenvolver uma velocidade de até 40 km por hora e apresentava inovações importantes como a mudança de engrenagens e suspensão independente no eixo dianteiro.  Nos modelos construídos anos mais tarde, o La Mancelle e o Rapide, foram introduzidas algumas características dos carros modernos, como  motor dianteiro e a tração nas rodas traseiras, ligadas ao motor por meio de um eixo de transmissão e um diferencial.

Em 1862  outro francês, Beau de Rochas, definiu a teoria do motor de combustão interna de quatro tempos. Anos depois, já em 1876, o engenheiro alemão Nicholas Otto conseguiu construir um motor deste tipo. Otto apresentou  o primeiro motor de grande velocidade funcionando em um ciclo de quatro tempos.  O motor, porém, trabalhava com gás e não gasolina. O trabalho desenvolvido por este motor ficou conhecido como “ciclo Otto”.

Foi Gottlieb Daimler quem mais tarde adaptou o motor de ciclo Otto ao uso de vapor de petróleo. O motor de Daimler, em 1895, já possuía quase todas as características essenciais do motor a gasolina de hoje em dia.

Para alguns historiadores, o francês Edouard  Delamare-Deboutteville teria sido um dos verdadeiros pais do automóvel. Delamare-Deboutteville criou o primeiro veículo movido a gasolina. Na verdade não passou de um triciclo pertencente ao seu irmão. Utilizando gasolina em vez de gás saiu por uma pequena estrada francesa, em 1883, para mostrar a camponeses atônitos sua nova invenção. Depois de algumas voltas o triciclo simplesmente explodiu.

5_9_6IA entrada em cena dos alemães Daimler e Benz dá novo impulso ao desenvolvimento do automóvel.  Em 1887, Daimler revolucionou os meios de transporte com seu motor a explosão  de alta velocidade.  Daimler e seu amigo  Wilhelm Maybach fundaram , em 1890, a empresa Daimler Motoren Gesellschaft para a produção de motores e carros completos para o mercado alemão. Além disso concederam licenças de fabricação à outras empresas como a Panhard Levassor e à Peugeot. O primeiro automóvel produzido  para a venda foi o Riemenwagen.

O desenvolvimento técnico da Daimler teve como aliado o consul geral do Império Austro-Húngaro, em Nice, Emil Jellinek que deu muitas idéias técnicas e práticas para o carro do futuro. Depois da morte de Gottlieb Daimler, em 1900, o diplomata austríaco tornou-se representante exclusivo da empresa alemã na  França, Áustria e Hungria. O projeto de um novo carro desenvolvido por Maybach deu novo impulso a empresa de Daimler. Em 1901 foi apresentado o novo automóvel com motor de quatro cilindros. Por desejo de Jellinek,  o modelo recebeu o mesmo nome de sua filha: Mercedes.

Enquanto isso, bem perto de Daimler, o carro de três rodas de Karl Benz já tinha uma produção limitada.  A literatura de vendas da época descrevia-o como uma “veículo agradável bem como um aparelho capaz de subir montanhas”. As vendas, porém, foram poucas.