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As primeiras corridas no Brasil

A primeira corrida em São Paulo – 1908

A primeira corrida em São Paulo – 1908 (Fonte: http://www.nobresdogrid.com.br)

Os quinze  carros, belos e delicados Renault, Fiat, Lorraine-Dietrich e Lion-Peugeot, estavam alinhados em frente ao Parque Antártica, na zona oeste de São Paulo, prontos para largar em direção à história. Os pilotos, ansiosos para correr  setenta e cinco quilometros de um percurso que ia até Itapecerica da Serra e voltava ao ponto de largada, eram aclamados pela multidão de dez mil pessoas como verdadeiros heróis. Era o dia 26 de julho de 1908, data da primeira corrida de automóveis no Brasil e também na América do Sul.

O vencedor daquela prova histórica foi Sylvio Álvares Penteado, filho  de uma rica família rural paulista, que com seu Fiat de 40 cavalos e motor de quatro cilindros, cobriu o trajeto em 1 hora e 30 minutos, a uma velocidade média de cinquenta quilometros por hora.

Apenas após um intervalo de oito anos, é que os carros voltariam a zunir pelas estradas paulistas. Em 19l6,  um grupo de desbravadores pilotos enfrentou, com coragem, o longo e difícil percurso entre São Paulo e Ribeirão Preto, na segunda corrida realizada no Brasil.

Mas, o automobilismo esportivo brasileiro custou a ganhar velocidade. Foi apenas na década de trinta que o ronco dos motores e a habilidade dos pilotos se transformaram em atração popular. Em 1933, a inauguração do Trampolim do Diabo, um circuito de onze quilometros e cheio de curvas perigosas, colocou o País no calendário do automobilismo internacional.

circuito_gaveaIdealizado por Manuel de Teffé, nobre, diplomata e piloto nas horas vagas, o Circuito da Gávea, como ficou conhecido o Trampolim do Diabo, teve sua primeira corrida no dia 8 de outubro de 1933. Pelas avenidas e ruas estreitas da zona sul do Rio de Janeiro, entre subidas e descidas,  as baratinhas, os bólidos da época, se misturavam a carros de passeio adaptados para a corrida em oficinas de fundo de quintal. Da primeira corrida da Gávea participaram alguns pilotos estrangeiros sem renome e o vencedor  foi o Barão de Teffé, o mesmo homem que havia criado o circuito.

Naqueles tempos românticos, que transformaram a corrida da Gávea num marco do automobilismo brasileiro, os apaixonados pelo esporte descobriram em um italiano veloz o seu primeiro ídolo. Carlo Pintacuda virou sinônimo de velocidade no Rio de Janeiro e em todo o Brasil, ao vencer a prova de 1937. Com sua reluzente Alfa-Romeo de fábrica, Pintacuda, em uma atuação memorável, bateu a poderosa Auto-Union do alemão Hans Von Stuck.

Adorado pelos brasileiros,  o italiano voltou a ganhar a corrida em 38. Por causa  da forma arrojada com que atacava as curvas e a velocidade que alcançava nas retas, Carlo Pintacuda passou a ser chamado de “herói da Gávea”.

A Segunda Guerra Mundial, no entanto, interrompeu as corridas no Trampolim do Diabo e pôs fim ao reinado do ás italiano. Os motores só voltaram a roncar no circuito da Gávea, em 194l. As dificuldades impostas pela guerra obrigaram todos os carros a utilizarem o álcool como combustível. Pilotando uma Maserati, um ex- mecânico de São Paulo, de nome Francisco Landi, venceu a prova depois de sete anos de tentativas frustradas. Foi a primeira das tres vitórias que Chico Landi obteve no circuito do Rio de Janeiro. A mais espetacular delas aconteceu em 1947. Debaixo de uma chuva tremenda e envolta por um clima de aventura, a batalha contra os italianos Luigi Viloresi e  Achille Varzi, da poderosa Maserati, foi assim descrita por Chico Landi:

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Circuito da Gávea , O trampolim do diabo – 1935 (Fonte: http://www.nobresdogrid.com.br)

“Na primeira volta, Viloresi corria em primeiro e eu em segundo. Ao passar pela Niemeyer, uma cachoeira despencava água sobre a pista. Passei sob ela e meu motor começou a ratear. Mesmo assim, continuei e, devido a um erro de Viloresi, assumi o primeiro lugar na descida da serra. Ao passar pelo box, sinalizei para prepararem uma vela para  trocar no meu carro. Mas, na passagem seguinte, não parei. Todo mundo me mostrava a vela e a chave da vela. Pensei comigo mesmo: só paro se perder a liderança. O box dos italianos estava avisado de que eu ia parar. Então, os italianos maneiraram, devido à chuva. E eu ia aproveitando. Na descida da serra, desligava o motor, que tinha compressor, para com a ventilação forçada ver se conseguia secar a vela. E secou, ao fim de algumas voltas. O motor começou a funcionar redondo. Venci sem maiores problemas. Lembro que, no fim da  corrida, Viloresi veio falar comigo: só um milagre – disse – poderia ter feito secar a vela do carro. E apontava para o Cristo no Corcovado”.

Em 1948, Francisco Landi conquistou sua última vitória no Circuito da Gávea. No ano seguinte, os italianos voltaram a dominar, com pilotos e carros que já se preparavam para ingressar na versão definitiva da Formula Um: Viloresi, Alberto Ascari, Giuseppe Farina, Maserati e Ferrari.

A última disputa no Trampolim do Diabo foi em janeiro de l954. A corrida, vencida pelo suiço barão de Graffenried, marcou o fim de uma era. Mas a derradeira sensação daqueles tempos aconteceu em 1952. Juan Manoel Fangio, já famoso na Europa e em todo o mundo, liderava a prova até quebrar a poucas voltas do final. Ganhou um outro argentino chamado Froilan Gonzales, com Chico Landi em segundo.

Em seus vinte e um anos de existência, com algumas interrupções, o Circuito da Gávea abrigou treze corridas, muitos nomes, marcas e lendas que entraram para a história real do automobilismo esportivo do Brasil. Quando acabaram-se as disputas no Trampolim do Diabo, as atenções já estavam, de certa forma, voltadas para São Paulo, mais especialmente, para um lugar distante quarenta quilometros do centro da cidade.