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As competições

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O automóvel nasceu para tirar o homem de sua inércia de animal. Um animal lento. Presa fácil nos espaços abertos, angustiado pela vontade que só ele possui, de estar sempre onde seus olhos alcançam, não onde seus pés estão.

Através da técnica, do uso da sua inteligência, essa limitação foi superada envolvendo o sabor de uma nova sensação.

Ser mais rápido do que era, sozinho ou montado no lombo de algum animal, não é suficiente. A necessidade de estar sempre mais rápido que qualquer outro ser na natureza, fez o homem trabalhar muito a sua nova invenção.

Como naquele final de século XIX  as invenções pipocavam em todo planeta, sem maiores formalizações, carros e motores foram inventados de todas as formas e jeitos. A partir daí os homens passaram a competir entre si,  para saber quem faria o carro mais rápido.*(clip carros)*. No curto período de dez anos, entre 1899 e 1908,o automóvel recebeu tantas contribuições técnicas, que o transformaram de uma carroça de três rodas, em algo próximo do que temos hoje, com a criação do modelo T da Ford.

A nova invenção e todas as competições entre os diversos modelos de carros, atraiam milhares de pessoas. Afinal tratava-se de algo maior que um show daqueles tempos. Feiras e circos abrigavam pequenas mostras e provas dos mais diversos tipos. A maior parte delas explorando o lado fantástico do mundo das máquinas.

Já no final dos primeiros dez anos deste século, as competições de carros tornaram-se mais freqüente, já que a industria produzia mais e mais gente tinha acesso ao seu automóvel. O modelo T da Ford por exemplo, passava a ser o primeiro veículo produzido em série no planeta e, naqueles tempo custava 500 dólares financiados aos compradores à longo prazo.

Os Grand Prix, ao lado das longas provas de estrada, ligando cidade distantes como Paris-Moscou, e depois, Paris-Moscou-Pequim, tornaram-se os grandes eventos.

As provas de estrada mostravam o quanto a nova máquina era confiável e resistente, capaz de levar o homem mais rápido e com maior liberdade a grandes distâncias, sem estar limitado aos trilhos dos trens.

2_1_43CNos Grandes Prêmios em circuitos fechados pelas ruas de cidades importantes da Europa  estava em exibição a velocidade e o poder das máquinas e, lógico, de quem as possuía. Os Grandes Prêmios, permitindo o acompanhamento por maior número de pessoas acabaram ficando mais populares e as fábricas e construtores independentes passaram a gastar mais e mais para produzir carros  capazes de vencer as corridas.

Uma das provas mais antigas desse circuito de Grand Prix, é o GP de Pau na França, disputado desde 1901. Esses grandes prêmios e as corridas de estrada, punham a prova também a rivalidade cada vez maior entre os diversos países da Europa.

 

Copiando algo que já era moda nos Estados Unidos, os circuitos ovais de terra, os ingleses construíram sua primeira grande pista de corridas. Um oval inclinado que tinha como grande diferencial a sua pavimentação: madeira!  A pista foi construída com o intuito de oferecer as bases para a industria  de automóveis na Inglaterra.

A Primeira Guerra Mundial fez todo o movimento de competições desaparecer, mas quando a paz voltou, aconteceu um período rico em provas. Os Grandes Prêmios tornaram-se mais e mais populares. É dessa época o Grande Prêmio de Mônaco, disputado pelas ruas do pequeno principado encravado nas montanhas do sul da França.  A característica inicial de envolver carros que usavam soluções técnicas inovadoras permaneceu.

Nos anos 20 são criadas várias regras que ficam valendo para os diversos GP’s, baseadas nas regras do GP da França. Tamanho de motor e potência ainda não eram limitados, assim como o limite do tanque de combustível, mas já estava prevista a forma de largada, parada, como ainda é até hoje e várias bandeiras de sinalização, criadas a partir de regras de trânsito usadas na Inglaterra, antes do surgimento dos sinais luminosos. Essa é uma época em que a profissão de piloto passa muito mais pela coragem do que pela técnica. Vários deles aceleram em competições de carros e motos, como Tazio Nuvolari, um piloto italiano que fez história no automobilismo e talvez tenha sido um dos maiores pilotos de todos os tempos.

2_18IOs maiores vencedores de corridas na época eram os carros italianos. Alfa Romeo e Maserati, principalmente. O domínio das Alfa, que usavam as cores nacionais da Itália para competições, o vermelho, provocou aos poucos uma nova reação nacionalista em cada país europeu. Os primeiros a dar sinal de resistência foram os ingleses, mas os alemães, já nos anos trinta, impulsionados pelo rancor da derrota na Guerra, moviam sua crescente industria na direção da competição para afirmar uma nova ordem social , o Nazismo.

Na Alemanha havia uma das maiores, complexas e perfeitas pistas de corridas, Nurburgring, encravada no meio da floresta e montanha, serpenteava com suas 172 curvas por mais de 28 quilômetros. Era um verdadeiro desafio à capacidade de carros e pilotos.

Financiados pela política expancionista, engenheiros e técnicos das fábricas Mercedes e Auto Union criaram algumas das mais fantásticas máquinas de competição e como todos corriam com carros pintados apenas com as cores de seu país, os carros da duas fábricas eram prateados e foram apelidados de “flechas de prata”.

Os carros da Auto Union eram projetados por Ferdinand Porshe , o criador do Fusca. A concepção daqueles carros era a base do que são hoje os carros da F-1, com motor entre eixos, piloto logo à frente do motor e caixa de câmbio atrás do conjunto. Equipados com poderosos motores de duplo comando de válvulas, chegavam facilmente aos 300km/h.

O circuito do Grand Prix, que corria toda a Europa, serviu de propaganda do poder alemão. Pilotos ligados ou não ao esquema Nazista viraram lenda nessa época. Bernd Rosemayer e Rudolf Caracciola, descendente de italianos, são alguns deles.

O circuito europeu de Grand Prix não tinha um calendário rígido. As provas aconteciam, organizadas individualmente e os pilotos e equipes eram convidados a participar. O que já começava agitar organizadores era o regulamento técnico, já que as inovações não paravam. Nesse final de anos trinta foi caracterizada técnicamente o que seria a categoria principal do automobilismo na Europa, a Formula A. Até o ano de 1940, os carros podiam ter motores com até 6 litros, ou 6000cc. Para a temporada de 1940,  a Formula A  tinha seus motores restritos a 4.5 litros sem compressor ou 1.5 litro, com o compressor. Esse regulamento porém nem pode ser aplicado no primeiro ano, já que os Grand Prix deixaram de acontecer.

Depois da Segunda Guerra Mundial, quando o automobilismo parou em todo o mundo, o circuito do Grand Prix voltou com força total. Agora, ao invés da rivalidade entre as nações ( atenuada depois da destruição que a Guerra provocou), a integração entre os povos, através do esporte era o motivo principal. Atravessar as fronteiras e acabar com as regras diferenciadas, em busca de uma unidade para a competição foi o sonho de todos os que criaram a Federação Internacional de Automobilismo, a FIA, novo nome da antiga Associação Européia de Automobilismo.

No que restou da década de quarenta o domínio voltou a ser dos carrinhos vermelhos da Alfa Romeo. Mantidos intactos, os modelos 158, não tinham adversários entre os carros que restaram dos seis anos de loucura da Guerra. Os Alfa só foram batidos quando um ex chefe da Alfa, conseguiu criar um carro e um motor para a sua equipe. Enzo Ferrari criou sua equipe ainda nos anos trinta, quando corria com os carros da Alfa e no final dos anos 40, criou carro e motor que viraram lenda no automobilismo mundial.

2_32I3Esses últimos anos da década de 40, serviram para que a idéia de um Campeonato Mundial fosse realizado. Na passagem para a década de 50, foi estabelecido aquele que seria o primeiro ano do Campeonato Mundial de Fórmula Um. Com sete provas em seu calendário ficou definido que apenas os quatro melhores resultados seriam computados. Para se alcançar o status de campeonato mundial uma prova fora da Europa teria de ser realizada. Os Estados Unidos, aliados dos anos de guerra entraram no calendário com sua tradicional 500 Milhas de Indianápolis. Um arranjo mais político que desportivo, uma vez que as regras e o próprio tipo de prova , fugiam muito a tradição européia.

O regulamento técnico ficou sendo o mesmo de uma década atrás, sem limite de peso e com provas ainda sem um limite fixo de duração. Assim houve provas com pouco mais de 300km de percurso total até mais de mil quilômetros, no caso, a prova de Indianápolis.

Os grandes nomes do final dos anos 40 fizeram o sucesso do campeonato Mundial de 1950. Giuseppe (Nino) Farina, Juan Manuel Fangio e Luigi Fagioli, pilotos da Alfa Romeo dominaram o campeonato e o título acabou ficando com Nino Farina. Apesar de o Campeonato ter sido um sucesso, os Grandes Prêmios isolados continuavam a ser disputados e serviam como treino para as grandes equipes e chance de aparecer para pilotos desconhecidos, ou ricaços à procura de novas emoções. (Texto original  de Celso Miranda)