1995

O Campeonato Mundial de Fórmula 1 de 1995 serviu para Michael Schumacher dissipar todas as dúvidas que ficaram a seu respeito depois da conturbada conquista do ano anterior. A sua equipe, a Benetton, trocou os motores Ford pelos melhores propulsores do mercado, os V10 da Renault.

Era de se esperar alguma dificuldade de adaptação dos chassis do time, feitos sob medida para motores menores, de oito cilindros. De fato isso aconteceu no início do ano. Nos testes de inverno, a Williams mostrou sempre ser mais rápida e começou o campeonato como favorita. Nessa temporada foram introduzidas novas modificações no regulamento, continuando os motores aspirados de 3.000 cc, mas o peso mínimo dos carros subiu para 505 kg, o consumo e o  reabastecimento foram totalmente liberados. Em Interlagos, prova de abertura do Mundial, Damon Hill fez a pole-position e mostrou que o favoritismo não era casual. Logo no primeiro treino, Schumacher sofreu um acidente inexplicável e parecia que a Benetton, de fato, teria problemas para levar o alemão ao bicampeonato. Mas na corrida as coisas foram bem diferentes. Schumacher valeu-se da quebra da suspensão do carro de Hill e cruzou a linha de chegada em primeiro, com David Coulthard, o outro piloto da Williams, em segundo.

Enquanto voava para descansar em Itaparica, Schumacher recebeu a notícia surpreendente: quase cinco horas depois da corrida, a FIA anunciou que ele e Coulthard haviam sido desclassificados porque a Benetton e a Williams utilizaram em Interlagos um combustível diferente daquele previamente aprovado pela entidade, antes do início do campeonato. O austríaco Gerhard Berger, da Ferrari, foi declarado vencedor. As duas equipes recorreram e semanas depois Schumacher e Coulthard recuperaram seus pontos. Mas os dois times foram multados e seus pontos, válidos para o Mundial de Construtores, não foram computados.

A segunda etapa do Mundial aconteceu na Argentina, que estava afastada da F-1 desde 1981. Os treinos aconteceram com muita chuva e David Coulthard acabou conquistando a primeira pole de sua carreira. Damon Hill foi o vencedor, com Jean Alesi, da Ferrari, em segundo e Schumacher em terceiro. A Benetton já começava a se preocupar. A vantagem de Hill sobre o alemão, superior a 30 segundos, foi muito maior do que a equipe esperava. O GP de San Marino, em Imola, serviu para deixar mais grisalhos ainda os cabelos de Flavio Briatore, diretor da Benetton. É verdade que Schumacher fez a pole. Mas, na corrida, errou feio na volta seguinte ao seu primeiro pit stop e bateu sozinho. Hill venceu e abriu uma indesejada vantagem na classificação: 20 a 14.

Uma das atrações da prova foi a estréia de Nigel Mansell pela McLaren. O inglês não correu nas duas primeiras etapas porque não cabia dentro do cockpit.  A corrida de Imola aconteceu num clima de grande tristeza. Um ano antes o circuito tinha vivido um dos piores finais de semana da história da F-1 com a morte de Roland Ratzenberger e Ayrton Senna. Apesar da lembrança inevitável, os organizadores não promoveram nenhuma homenagem aos pilotos. Apenas no dia seguinte à prova houve uma missa campal atrás da curva Tamburello, onde Senna morreu.

A curva, aliás, não existe mais. Depois do acidente fatal de 1º de maio de 1994, foi construída uma chicane no local. Na Espanha, a Benetton começou a se acertar. Schumacher fez mais uma pole e ganhou a corrida de Barcelona com extrema facilidade. O segundo colocado, Johnny Herbert (seu companheiro de equipe), chegou 51s988 atrás. Foi a primeira dobradinha da Benetton no ano e, também, o melhor resultado da vida de Herbert até ali. Hill, numa corrida discreta, terminou em quarto. Foi em Barcelona que a Jordan de Rubens Barrichello, que começou o ano prometendo até vitórias, conseguiu seus primeiros pontos no campeonato. Mas não foi o brasileiro o autor da façanha, e sim seu companheiro Eddie Irvine. Já Mansell desistiu da corrida depois de 18 voltas. Embicou nos boxes, disse que o carro era uma porcaria e na semana seguinte seria demitido pela McLaren e pela Mercedes-Benz. Esperava-se uma prova bem disputada na etapa seguinte, em Mônaco. Principalmente porque Hill conseguiu a pole e prometia segurar a ponta com todas as forças. Mas o inglês, mais uma vez, não resistiu ao talento de Schumacher e à estratégia da Benetton. O alemão ganhou de novo e com folga: 34s917 à frente de Damon, o segundo colocado. A corrida seguinte, no Canadá, teria apenas 24 carros no grid.

Michael Schumacher

Michael Schumacher

A Simtek, depois de Mônaco, avisou que só voltaria a disputar os GPs se arranjasse mais dinheiro de seus patrocinadores. Como não conseguiu, fechou suas portas e deixou desempregados os pilotos Jos Verstappen e Domenico Schiatarella. A prova de Montreal foi recheada de surpresas. Vários pilotos foram ficando pelo meio do caminho, Schumacher teve problemas de câmbio e a vitória caiu no colo de Jean Alesi, da Ferrari. Foi a primeira de sua carreira na F-1, exatamente no dia em que completou 31 anos de idade. Completando o pódio, mais duas novidades: Rubens Barrichello e Eddie Irvine, da Jordan.

Na França, a Renault queria fazer sua festa. Conseguiu. Hill, pela Williams, fez a pole; Schumacher, com o mesmo motor, largou em segundo. Mais uma vez o alemão deu um baile no inglês na tática de corrida e conseguiu outra vitória tranquila, mais de meio minuto à frente de Damon. Os problemas de relacionamento entre Hill e Schumacher começaram nessa corrida. O alemão acusou o inglês de fazer um “brake-test” em Magny-Cours. É uma manobra desleal na qual o piloto que está na frente dá uma “beliscada” no freio em pontos improváveis para assustar aquele que vem atrás, tentando a ultrapassagem. Hill negou, claro, mas Schumacher botou a boca no trombone e chamou seu rival de “perdedor”, entre outras coisas.

Em Silverstone, Hill devolveu as ofensas e, pior, acabou com a corrida de Schumacher numa desastrada tentativa de ultrapassagem a 16 voltas do final do GP da Inglaterra. Quem saiu no lucro foi o segundo piloto da Benetton, o simpático Johnny Herbert, que venceu a primeira corrida de sua carreira na F-1. A Alemanha se preparou como nunca para festejar Schumacher duas semanas depois. Mais de cem mil torcedores lotaram as arquibancadas de Hockenheim para azucrinar Hill e vibrar com seu ídolo. Michael não decepcionou. Perdeu a pole, é verdade, mas na corrida foi soberano e tornou-se o primeiro alemão a vencer um GP em casa na história da F-1. Como Hill rodou sozinho logo na segunda volta, Schumacher comemorou duplamente. O título começava a se desenhar para o piloto da Benetton. Hill esboçou uma reação em Budapeste. Sem cometer erros, fez a pole, ganhou e marcou a melhor volta do GP da Hungria. Schumacher ainda teve muito azar.

A quatro voltas do final parou com pane no sistema de câmbio e não pontuou. Mas azar de verdade teve Rubens Barrichello. O brasileiro da Jordan fazia uma corrida consciente, segura, e estava em terceiro na última volta. Só que a 300 metros da linha de chegada, na última curva, seu motor perdeu potência e ele foi ultrapassado por quatro pilotos. Terminou em sétimo. “Era melhor ter quebrado na primeira volta do que passar por isso”, desabafou. A prova de Spa-Francorchamps marcou a arrancada de Schumacher rumo ao título. O alemão começou o fim-de-semana com problemas, ficando apenas em 16º no grid, porque no treino de sábado a pista esteve seca só nos primeiros cinco minutos e quem aproveitou para marcar tempo nesse breve período se deu bem. Depois que o toró desabou, era impossível melhorar as voltas. Gerhard Berger ficou com a pole, sua única — e também da Ferrari — na temporada.

Mesmo largando atrás, Schumacher deu um show. Foi ultrapassando todo mundo, sem tomar conhecimento e ainda se deu ao luxo de ficar na pista com pneus lisos apesar do asfalto molhado. Protagonizou um lindo duelo com Hill e provou para quem ainda duvidava que era mesmo o melhor piloto do mundo na época. O título era apenas uma questão de tempo.

Na Itália aconteceu o segundo “round” da briga entre Schumacher e Hill. Mais uma vez o inglês cometeu uma senhora barbeiragem e bateu no alemão quando tentava a ultrapassagem. E, de novo, a vitória ficou de graça para Herbert, sua segunda no ano. No pódio, duas presenças pouco habituais: Mika Hakkinen, da McLaren, e Heinz-Harald Frentzen, da Sauber. A decepção em Monza ficou por conta da Ferrari: Berger e Alesi abandonaram. Menos mal para os torcedores italianos que poucos dias antes a Ferrari havia anunciado a contratação, para 1996, de ninguém menos do que Schumacher.A partir do GP de Portugal o alemão começou a fazer contas para acabar logo com aquele martírio. Dali em diante, interessava chegar à frente de Hill sem cometer grandes loucuras.

Foi o que aconteceu no Estoril. A vitória ficou com David Coulthard, sua primeira na F-1. Schumacher terminou em segundo e Damon, em terceiro. A prova foi marcada pela fantástica capotagem de Ukyo Katayama, da Tyrrell, na primeira largada. Ele não se feriu gravemente e, duas corridas depois, estava de volta à equipe. Com um frio de zero grau e muita chuva, a F-1 desembarcou na semana seguinte em Nürburgring, Alemanha, para o GP da Europa. Foi outro espetáculo soberbo de Schumacher diante de seu público, mais uma vitória conquistada no fim à base de estratégia e, principalmente, talento. Hill, estabanado, se arrebentou sozinho numa barreira de pneus a dez voltas do fim e foi obrigado a aplaudir de pé a vitória do inimigo. Depois da corrida, admitiu: “Agora, só um milagre”.

Como milagres não acontecem com grande frequência na F-1, Schumacher pôde comemorar seu segundo título mundial na corrida seguinte, em Aida. Com grande facilidade ele venceu o GP do Pacífico e garantiu matematicamente a conquista. A prova foi desinteressante e pouco disputada. Hill já havia mesmo jogado a toalha e o único atrativo das duas etapas seguintes seria a luta de Schumacher para quebrar o recorde de vitórias na mesma temporada. Em Suzuka ele igualou a marca que pertencia a Mansell desde 1992, vencendo sua nona corrida no ano. Mais uma vez a prova ficou devendo em emoções.

Teve lances engraçados, como a sequência de seis saídas de pista no mesmo lugar no fim do GP do Japão. Hill, claro, foi um dos que rodaram ali. Schumacher, obviamente, passou ileso. Com a vitória, a Benetton conquistou seu primeiro título de construtores desde que estreou na F-1, em 86. Quando não se esperava mais nada da última prova do ano, eis que acontece o acidente mais grave da temporada no primeiro treino para o GP da Austrália. Mika Hakkinen, da McLaren, bateu a quase 200 km/h e foi internado em coma no hospital da cidade. Um mês depois, recuperado, voltou para casa, em Mônaco. A corrida foi muito curiosa. Apenas oito carros chegaram ao final, proporcionando um pódio esquisito, com Olivier Panis e Gianni Morbidelli em segundo e terceiro. Hill venceu e limpou o nome, garantindo o emprego na Williams para 1996.

Participaram do campeonato as equipes da Rothmans Williams Renault, Mild Seven Benetton Renault, Ferrari, Marlboro McLaren Mercedes, Total Jordan Peugeot, Red Bull Sauber Ford, Ligier Gitanes Blondes, Footwork Hart, Minardi Itália, Nokia Tyrrel Yamaha, Parmalat Fort Ford e Pacific Grand Prix Ltda.

1995 – Grandes Prêmios

 
Dia GP Circuito Voltas Vencedor Equipe Tempo

26/03

Brasil Interlagos 71 – 307,075  km M. Schumacher Benetton 1h38m34s154

09/04

Argentina B.  Aires 72 – 306,482 km Damon Hill Williams 1h53m14s532

30/04

S. Marino Imola 63 – 308,385 km Damon Hill Williams 1h41m42s522

14/05

Espanha Barcelona 65 –  307,114 km M. Schumacher Benetton 1h34m20s507

28/05

Mônaco Monte Carlo 78 –  259,584 km M. Schumacher Benetton 1h53m11s258

11/06

Canadá Montreal 68 – 301,240 km Jean Alesi Ferrari 1h44m54s171

02/07

França Magny-Cours 72 –  306 km M. Schumacher Benetton 1h38m28s429

16/07

Inglaterra Silverstone 61 – 308,477 km Johnny Herbert Benetton 1h35m35s093

30/07

Alemanha Hockenheim 45 – 307,035 km M. Schumacher Benetton 1h22m56s043

13/08

Hungria Hungaroring 77 –  305,536 kn Damon Hill Williams 1h46m25s721

27/08

Bélgica Spa 44 –  306,856 km M. Schumacher Benetton 1h36m47s375

10/09

Itália Monza 53 – 305,810 km Johnny Herbert Benetton 1h18m27s916

24/09

Portugal Estoril 71 – 309,560 km David Coulthard Williams 1h49m52s145

01/10

Europa Nurburgring 67 – 305,252 kn M. Schumacher Benetton 1h39m59s044

22/10

Pacifico Aida 83 –  307,349 km M. Schumachr Benetton 1h48m49s972

29/10

Japão Suzuka 53 – 310,792 km M. Schumacher Benetton 1h36m52930

12/11

Australia Adelaide 81 – 306,180 km Damon Hill Williams 1h49m15s946

   1995 – Classificação – Pilotos

Pos. Piloto Páis Equipe Pts

Michael Schumacher Alemanha Beneton 102

Damon Hill Inglaterra Williams

69

David Coulthard Inglaterra Williams

49

Johnny Herbert Inglaterra Benetton

45

 5º

Jean Alesi França Ferrari

42

Gerhard Berger Áustria Ferrari

31

Mika Hakkinen Finlândia McLaren

17

Olivier Pani França Ligier

16

Heinz-Harald Frentzen Alemanha Sauber

15

10º

Mark Blundell Inglaterra McLaren

13

11º

Rubens Barrichello Brasil Jordan

11

12º

Eddie Irvine Inglaterra Jordan

10

13º

Martin Brundle Inglaterra Ligier

07

  14º Giani Morbidelli Itália Arrows

05

Mika Salo Finlândia Tyrrell

05

   16º Jean-Christophe Bouillon França Sauber

03

  17º Aguri Suzuki Japão Ligier

01

Pedro Lamy Portugal Minardi

01

 

1995 –  Campeonato Mundial de Construtores

Pos.

Equipes

Pts.

Benetton

137

Williams

112

Ferrari

73

McLaren

30

Ligier

24

Jordan

21

Sauber

18

Arrows

05

Tyrrell

05

10º

Minardi

01